sexta-feira, 4 de julho de 2014

Quindim, O Campeão

A vida de seu Apolinásio era tranqüila, como só a podem ter os moradores da zona rural. Em seu pequeno sítio, além da plantação de mandioca e de umas poucas hortaliças que eram à base de seu sustento, havia um pequeno galinheiro. Não era muito, mas, bastava a sua família. Ele, viúvo já há alguns anos, um filho de nove a dez anos e uma agregada, senhora de seus cinqüenta anos, que o ajudava a criar o filho e a cuidar da casa de três ou quatro peças. O banheiro ficava do lado de fora.
            Um dia, quando uma nova ninhada corria alegre pelo terreiro, Gu, como era conhecido e chamado o pequeno Gumercindo, afeiçoara-se a um pintinho e começou a tratá-lo com especial cuidado. Nascia assim, Quindim, franzino a princípio, porém, cuidado por Gu, crescia a olhos vistos.
            Certa vez, Apolinásio, alimentando sua criação, notara que o frangote tinha ares de superioridade e não perdia nenhuma disputa; até mesmo Cocó, galo chefe e senhor de seus patrícios, não ousava duelar com Quindim.
            Na roda de amigos, não se falava em outra coisa. Quindim era todo o cuidado daqueles que se encontravam na venda de Gervásio para um longo trago de pinga após uma semana dura de trabalho. É ali, naquele trololó solto e mole, que Gervásio, também criador de galinhas, propõe uma disputa: uma garrafa de pinga. Lutariam Quindim e Rércules, galo de boas proporções e tido como bom de briga. Apolinásio entristeceu, o galo era do filho. Gervásio, então, propôs o consolo definitivo. Se Quindim ganhasse, levaria a pinga e uma bola, aquelas de borracha fraca, para Gu; se perdesse, só pagaria a pinga.
            Na outra semana, reunidos os astros da tarde de gala e mais os assíduos espectadores, deu-se o grande embate. Quindim nem deu chance para Rércules, dois ou três golpes e Rércules ficou estirado no terreiro. Não por muito tempo. Gervásio o amparou com solenidade e o entregou a cozinheira. Rei deposto, rei morto, disse ele sem entender o sentido de tais palavras.
            Gu, sem saber do ocorrido, ficou felicíssimo com a bola que tratou de furar no primeiro chute que deu. Errou o alvo, acertou a cerca de arame farpado. O pai o consolou prometendo outra bola no final de semana e esta deveria ser de couro. Quindim tinha nova luta, duas garrafas de pinga. Mas, Apolinásio bateria o pé e exigiria a bola para o real proprietário do galo.
            Nova vitória de Quindim. Colocou a nocaute o galo adversário no quarto ou quinto golpe. Sua fama crescia e, em pouco tempo, Quindim, o campeão, como agora era chamado, tornou-se a sensação da venda de Gervásio. Todos os sitiantes da região lá corriam para desafiar ou assistir a mais uma vitória implacável de Quindim. Gervásio, cada vez mais feliz com seu protegido, era agora o organizador de todas as lutas, vendia como nunca. Todos ganhavam. Quindim, Gu, Apolinásio e ele, principalmente, e isso é que interessava. Tempos depois, um rico fazendeiro da região, Dr. Fernando Gouveia de Castro e Silva, surge com seu galo Rá. Disseram que era o nome de um antigo deus do Egito, mas, ninguém sabia quem era esse tal de Egito. Apolinásio ficara apreensivo, todos que lá iam, lá iam em suas carroças puxadas por burros ou a pé, como era mais comum. E chega esse Senhor Doutor Fernando Gouveia de Castro e Silva em sua caminhonete importada. Ninguém da venda sabia se era importada, mas, como o último carro que viram por ali era um corcel 74 que, às vezes, abastecia a venda, ninguém duvidou que aquele monstro de quatro rodas só poderia vir do estrangeiro.
-          E se ele quiser apostar alto, comentava Apolinásio a Gervásio, seu agora, patrocinador.
Suas apostas se limitavam as pingas, um pouco de farinha, um brinquedo ou outro para Gu; algo além disso, não teria como apostar.
            Gervásio, conciliador, dizia para que ele não se preocupasse, cobriria a aposta e, se por uma infelicidade do destino, Quindim, ganhador de tantas lutas, viesse a perder, eles, amigos, companheiros, compadres, fariam o negócio em pequenas prestações a perder de vista e os olhos da cara.
            Apolinásio confiava muito em Gervásio e por isso foram ver o que pretendia o Excelentíssimo Senhor Doutor Fernando Gouveia de Castro e Silva.
            - Mil Reais?! Exclamava Apolinásio sem nem saber quanto isso significava.
            Os amigos atenderam prontamente. Eu dou 10, eu dou 15, depois, Quindim não perde, se perder a gente acerta quando puder.
            Gervásio empenhou palavra e mercadorias. Gouveia, Gouveinha, como já era tratado pelos invencíveis fãs de Quindim, não se opôs, mil reais em dinheiro contra mercadorias e alguns contos de reis.
            No primeiro round, os lutadores apenas se analisaram, ninguém nada fez. No segundo, poucos golpes, sem grandes comoções. A luta se estendeu além de seu habitual. Gouveia ou Gouveinha torcia o nariz a temer o pior, mas, Rá mantinha-se de pé e a distância. Os patrocinadores de Quindim tinham um sorriso amarelo de satisfação. Expectativa, suores, murmúrios e sobrevêm o embate final. Após graves e ferozes bicadas, asas batendo, esporas ferindo, caem os dois galos por terra. Ninguém diz uma palavra. Todos estão boquiabertos. Olhares atentos. Ninguém pisca apesar do suor que escorre pelos olhos de cada um dos... Uma asa balança. É Quindim. Sorrisos largos de satisfação. Quindim estanca. Rá, tonto como um bêbado no final da tarde, cambaleando, põe-se de pé. Como um cachorro fiel a seu dono, vacila, caminha, cai, mas chega próximo ao dono, aos pés do dono onde descansa. Rá é o vencedor.
            Apolinásio, decretada a derrota de Quindim, o recolhe com uma grande tristeza no olhar. Quindim está vivo. Muito machucado. Vivo. Ferido em seu orgulho de galo brigão. Vivo.
            Apolinásio assina os papéis de compromisso de dívida com os amigos, amarrota uma amarga caderneta com Gervásio, onde inclui um tratorzinho de plástico barato para Gu e vai embora triste, sozinho com seu galo no colo.
            Em casa, depois de analisar os ferimentos de Quindim – Rei deposto, rei morto! – entrega a Felizbertina o prato principal do jantar: Arroz, Quindim, ovos e mandioca.
            Gu brinca com o tratorzinho de plástico no terreiro enquanto espera a hora de jantar.


Por que os Homens Mentem?

Há três motivos básicos para que os homens mintam: vergonha, medo e calhordice.
            Mas, não se apavorem. Há um culpado, ou melhor, culpada. Toda vez que um homem mente, deveria invocar a figura feminina mais ilustre de sua vida: sua mãe. Sim, não tenham dúvidas, as mães são as grandes e verdadeiras culpadas pelas mentiras dos homens. Então, como as mulheres podem ficar indignadas quando nós, meros fantoches, somos compelidos, obrigados mesmo, a mentir. Elas, pelo menos em teoria, são, foram ou serão mães.
            Quando bebês, tudo o que fazemos é bonitinho, engraçadinho e, então, jogamos comida fora do prato, fugimos cambaleantes para não tomar o banho que naturalmente queremos e, principalmente, dizemos ter medo do escuro só para ficar junto à mamãe e atrapalhar a vida daquele canalha que dorme com ela.
            Assim começamos a mentir deliberadamente. E como tudo na vida tem um fim...
            A primeira vez que descobrimos que não somos mais bonitinhos, engraçadinhos, é quando recebemos aquele olhar de reprovação, só porque jogamos uma colher de comida na cara do cachorro que não tinha nada que estar perto da mesa na hora do almoço. Crescemos e agora aquele olhar meigo, risonho e doce nos cobre de humilhação e vergonha. E eu juro que foi sem querer.
            Um pouco mais velhos, descobrimos que aqueles braços macios têm força e que força! Escondemos as notas da escola para fugir dos braços que espantam a preguiça do corpo e nos ensinam, cruel ensinamento, que o estudo é que nos fará alguém na vida. Não é por medo, não, mas eu juro que ainda não entregaram as notas.
            Finalmente, a duras penas, arrumamos uma namorada, aquela que irá nos devolver o carinho da infância e que tudo o que fizermos será, para ela, bonitinho, engraçadinho, como era com a mamãe. Exceto o sexo, nossa maior descoberta. E só então nos damos conta que os gemidos que ouvíamos de madrugada no quarto ao lado, não era o canalha batendo na mamãe. Era muito pior...
            Porém, assim como papai, o canalha, eu juro que a camisinha estourou.
            Um ano trabalhando no escritório de um velho ranzinza, torturador cruel, que sempre nos repreende por chegar atrasado. A culpa não é nossa não, é do ônibus, eufemismo para a mãe-esposa que não nos deixa pregar o olho reclamando que falta isso, falta aquilo. Sentimos vergonha porque as mulheres que trabalham conosco sempre chegam no horário, sempre sorridentes. É que elas não são homens, graças a Deus, são mulheres apenas e nós, pobres vítimas de uma sociedade patriarcal, mal conseguimos abrir um olho.
            - Sei que o senhor não vai acreditar, mas o ônibus teve um pneu furado quando eu vinha para o trabalho. Eu juro!
            Depois já cansados da luta diária, sonhamos em mandar o velho viajar, ou se preferirem, para a p... Mas, temos medo. Ficar sem emprego nos dias de hoje é quase um suicídio.
            - Sei que o senhor não vai acreditar, mas o ônibus teve um pneu furado quando eu vinha para o trabalho. Eu juro!
            Com o passar dos anos, melhoramos financeiramente e apenas financeiramente. O patrão é o mesmo e sabe-se-lá-por-quê nos deu promoções ao longo da carreira, afinal vinte anos não são vinte dias. Mas, com mil diabos, ele ainda não aceita minhas desculpas:
            - Sei que o senhor não vai acreditar, mas o pneu do carro furou quando eu vinha para o trabalho. Eu juro!
            Vinte anos não são vinte dias e muito menos trinta anos são trinta dias. Escorregamos definitivamente no caos. Casa, mulher, filhos, cachorro, o chato do sogro como patrão, trinta anos e o velho não morre nunca. Basta! Vamos a forra!
            Happy hour, cinco ou seis chopps depois, vem à nossa mesa uma mãe-mulher ou uma mulher-mãe como queiram, para nos consolar trinta anos de solidão, trinta anos em que nada do que fazemos é bonitinho, engraçadinho. Relutantes a convidamos para sentar. Conversa vai, conversa vem... Queremos por um fim em tudo. Basta!
-          Você é casado?
-          Não, esta aliança é o último elo que sobrou entre mim e meus filhos. Por isso
não a tiro.
-          Você ainda ama sua mulher, não?
-          Qual...
-          Pergunto isso, porque você parece assim... Tão triste...
-          Triste por estar sozinho há tanto tempo...
Seis ou sete chopps depois: Motel. E o que fazemos? Nada.
            Trinta anos não são trinta dias.
-          Isso nunca me aconteceu antes...
Trinta anos!
-          Se você me der um tempo, eu consigo...
Trinta anos!
- Vamos marcar outro dia, eu te ligo...
            Chegamos em casa às quatro ou quatro e meia da manhã...
-          Onde você estava?
-          Você não vai acreditar, mas o pneu furou e...
-          Mentiroso, safado, esta desculpa é velha.
-          Desculpe, querida (trinta anos não são trinta dias), estiquei com os amigos e não
me dei conta das horas e...
            - Você não tem amigos, cachorro...
            É verdade, tanto tempo sozinho, colegas são poucos e nenhum é de confiança, infelizmente. Trinta anos. E a mulher continua:
-          Diga a verdade, canalha, você estava com alguma prostituta. Você não presta.
Não pensou em mim, não pensou nos filhos... vo... você... você não me ama mais...
            Pingos nos is, saldos na balança. Resolvemos resgatar um fio de honestidade e honradez que se esconde em algum lugar, mas onde?
-          Perdoe-me, meu amor, perdi o controle. Sai para desafogar, me envolvi com
uma mulher... Fomos ao motel, mas eu juro, não fizemos nada...
-          Não fizeram nada?... No motel?... Não fizeram nada?...
-          Tá bem, fiz tudo, tudo ouviu... Estou cansado e quero dormir. Boa noite!
No outro dia, a vida continua... Café, torrada, filhos na escola e a mulher... Bem, a

mulher, esposa e mãe, assim como todas as mães, acaba nos perdoando mas... Do que mesmo?

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Por que as Mulheres Mentem

Por que as Mulheres Mentem

            Toda mulher tem em si o germe da maternidade, mesmo que nunca venha a se tornar mãe. Símbolo do amor, guardiã do lar, benfeitora do mundo, a mulher, fascinante ser da criação também é humana e como tal está sujeita a toda sorte de catástrofes a que nós homens estamos sujeitos. Então por que mentem as mulheres?
            Alguns de ânimos exaltados, logo dirão que as mulheres não mentem jamais. Dizem isso sem compreender a extensão de minhas palavras e seu teor quase filosófico, quem sabe?
            A mulher é um ser divino, todos o sabem, mas qual o homem, digo e repito, qual o homem que gostaria de ser mulher?
            Ora, todos os homens mentem, com raríssimas exceções, e são todos seres humanos. As mulheres também são seres humanos, logo...
            Para que não me acusem mais disto ou daquilo, transcrevo uma carta que recebi há alguns dias, que trata exatamente deste assunto.

            Meu nome é Ana Cristina, sou casada e muito bem casada, portanto, o nome é fictício, nem precisaria dizer. Nasci no interior e meu pai, rico fazendeiro da região, era temido por todos: fazendeiros, sitiantes, gente da cidade, por mim e por mamãe.
            Um dia, filha única, filha de seus cuidados, saí para passear e tomar banho de rio. Atrasei-me para o jantar servido pontualmente às cinco e meia. Meu pai se pôs em desespero e irritado, começou a andar de um lado a outro da sala. Mamãe tratou logo de amenizar a situação, disse que eu tinha ido com Tião, um rapazinho que nascera e trabalhava na fazenda, ao pomar colher algumas frutas para a sobremesa e que não tardava a chegar. Papai acalmou-se um pouco, mas logo empertigou-se. Tião entrara na sala trazendo as frutas. Sozinho.
-         Cadê Aninha?
-         Sei não, patrão...
Papai olhou fuzilante para mamãe, descobrira a mentira, porém, antes que pudesse
investir contra ela, entrei na sala correndo e saltitante. Olhei à volta e entendi a situação, também o olhar de mamãe denunciava tudo.
            - Ô, Tião, por que não me esperou?
            Papai, depois de toda a minha cena, acreditou que tudo não passou de brincadeira de criança, mas passou a olhar Tião com certa reserva e cautela.
            Tião e eu crescemos juntos e juntos passamos pela infância e chegamos à adolescência. Tião era rude, mas jeitoso e carinhoso comigo. Nós nos amávamos. Contudo, papai, com todo o seu rigor, jamais permitiria que sua filha, filha de um rico fazendeiro, se envolvesse com um peão. Mesmo assim seguimos com nosso namoro, em segredo, quer dizer, segredo mesmo só havia para papai. Mamãe, atenta, vigiava meus passos e os de papai, mas para tranqüilizar-se de toda, arrumou-me um pretendente, filho de um compadre de papai. Tião esbravejou, praguejou, mas eu o convenci de que seria melhor, até arranjarmos as coisas. Assim, namorava abertamente com Justino, nome também fictício e às escondidas com meu amado Tião.
            Tião e eu passamos dos limites: engravidei. Tião queria casar, enfrentar papai e eu consegui, não sem muito esforço, fazer com que visse o absurdo que isso seria; papai certamente o mataria. Mamãe, como já disse, sempre atenta, conversando com papai, assegurou-lhe que eu amava Justino e que era preciso que nos casássemos logo.Não sem desconfiança, papai consentiu. Dos males, disse ele, se é que existe algum mal, o menor. Eu e Tião nos separamos tristemente. Tião era empregado aos olhos de papai e aos meus, jamais poderia... Ao passo que Justino era rico e herdeiro...
            Dali a pouco, casávamos Justino e eu. Tião partiu, mas jurou que um dia voltaria para buscar a mim e ao nosso filho, assim que fizesse fortuna.
            Nosso filho nasceu daí a sete meses, mas não houve reboliço, porque o bebê era franzino e ninguém duvidou que ele era realmente de sete meses. Talvez alguém desconfiasse, mas nunca disse nada e nem teria coragem. Nasceu rico e herdeiro como o pai.
            Anos depois, papai já falecido e eu com três filhos, reencontro Tião em nossa pequena, mas bela cidade.
            Tião pergunta pelo menino, digo que está bem, é forte e robusto como os outros. Pede para vê-lo. Não consinto. Diz que está bem de vida, possui fazenda, gado e tudo mais para me dar conforto, a mim e aos meus filhos.
            - Agora que seu pai morreu...
            Sinto uma faca a dilacerar-me o peito, eu ainda o amo e muito, quase como nos tempos de infância... Porém...
            - Desculpe Tião, amo meu marido e jamais o deixaria, nem ele nem meus filhos, por nada deste mundo...
            Tião se afasta com grande revolta e sofrimento, mas afinal, a vida continua...
            Menti! Menti! Menti!
            Por que eu menti?

            E eu aqui... Não vou dizer mais nada.









20/10-21/10/05

sábado, 23 de julho de 2011

SOMBRAS



Navegando entre os mares do devaneio buscando aos céus os favores da clausura,
ardendo em ânsias, rugindo em fúria, vítima do suplício... constante amigo... Sombras!
Neste solo fecundo de amores e de pesar, sob a pena de viver amargurado,
deixei que a mão sobre o papel pousasse, riscando vezos, sufocando dores e,
destes versos que o labor me entoa, sorvi meu sangue, derramei meu pranto...
Pendidos passos da loucura errante, eis que as Sombras do poeta ressurgem em versos
 que pairam junto ao corpo amante, que são da poesia a luta, deixados ao vento para que
 olhares indiscretos encontrem um meio de chorar e amar na vida...
Eis um poeta, eis um tolo, eis o verbo, as trevas, a luz...
Deixai a lousa suspirar meu canto!

V.A

O Remorso e o Poeta (Eco)

“Os beijos que não tive por tolice
Por timidez o que sofrer não pude
E por pudor os versos que não disse.”
Olavo Bilac

Na solidão do quarto as altas horas
O altivo coração descompassado
Sem do Letes as águas Ter provado
Sentia ainda tardar a nova aurora.

- Ah! Mísero poeta, por quem choras?
- Choro por Áurea, a quem sou devotado
A quem na solidão, eu tenho amado
Beijando a sombra em suplicas, embora,
Não me devolva a paz, não cale os ais.
- A ela confessaste teu amor?
- Sim, e sem ter palavras de rancor,
Vi sepultado o coração. Jamais
Senti fria descrença no futuro
Quando entre minhas lágrimas eu vi
O quanto lhe doía estar ali.
- Que diz!? Achas que foste prematuro?!
- Não! Talvez, prematura seja a vida...
Há muito que ela sabe o quanto a amo,
Onde notei a dor e não reclamo,
Foi ao leito, quando ela, arrependida,
Não escondeu o mal que lhe causei.
- Então, juntos nos braços da saudade
Se entregaram?
- Nos braços, em verdade,
Do vinho e não dos beijos que eu amei.
- Como? Não era o que querias tu?
- Sim, tê-la aos braços era o meu desejo
Sufocado por dúzias de seus beijos
Sentindo aquele corpo amado e nu
Mas, não ao preço que me foi cobrado;
O torpor e a saudade foram fortes,
Deus sabe que preferiria a morte
Do que a Ter com meu zelo, machucado.
- Julgas a Ter ferido?
- O que pensar?
Consola-me este olhar: “a noite fria...
Mágoa e rancor, temor? Não poderia
Aquele seio amado armazenar...”
Prefiro crer que errei e, novamente,
Movido pelo amor, pela esperança,
Ver, dela, o coração nascer criança,
Brotando em nova flor desta semente...
- E ao reencontrá-la, que dirás?
- Perdão!
- E se negado for?
- Suplicarei!
- Se ela pedir que parta?
- Ficarei!
- Se ela disser: “Loucura”?
- Eu, paixão!
- Se ela disser: “Menti”?
- Eu perdoarei!
- “Te usei para a vingança!”
- Com razão!
- “Ora não te rebaixes!”
- Por que não?!
- “Eu te não amo! Parta!”
- Morrerei!
- Não se morre de amor, tu exageras!
- Não se more de amor?! E o olhar sem vida,
E o mórbido vagar, folha partida
No encontro com estranhos? Ah! Quem dera!
Aquele que encontrar-me irá dizer,
Sentindo que choro por minha amada:
“Eis um homem que vive sem viver!”
- Queres, então, viver em solidão?
- Se assim, puder amar.
- Sem tê-la aos braços?
- A saudade, a lembrança, aqueles traços,
Eis tudo que preciso ao coração.
- Mentes, tu não a quer!!
- Falso pudor!
Inda sonho co’s beijos que não tive
E em meu peito ela, ela ainda vive
O que não quero é ver morrer o amor!...

Autópsia

Quis abrir meu peito
Encontrar o defeito
Vasculhar minhas entranhas
Entender esta dor estranha
Que me rasga a alma
Numa loucura sem traumas
Que fervilha o corte, sem sorte
Profundo e sem morte
Do peito aberto, exposto
Frágil, sem rosto
Do ofegante coração
Que transborda em paixão.

Amor, Prazer e Fogo

Beijei teu corpo e que prazer senti!
Tua boca, teus seios, tudo enfim...
Ansiava amor e amor te ofereci!
Entregaste teu corpo lasso a mim.

Tua pele em fogo a exalar jasmim
Contaminou-me a boca e me esqueci
Do meu prazer por teu prazer. Assim,
Vendo-te arder, gemer... enlouqueci!

Abraçaste-me então a suspirar
Suaves convulsões que ainda sinto
Em minha carne a arder em febre e fogo!

Não me exiles do vale do teu corpo
E deixa-me gozar pois eu não minto
É meu prazer o teu prazer... Amar!

Um Beijo

Um beijo, foste tudo o que me deste,
Um beijo e nada mais;
Não sei que lembrança agora a trouxeste,
A percorrer meus ais.

Folgo-me, lembrar-te , em teu meigo riso,
O beijo que me deste;
Consolo-me co’a lembrança furtiva,
De teu rosto celeste.

Choro o beijo, que não terei jamais;
O beijo que me deste;
Choro por outros, meus frágeis rivais,
Os beijos que me deste.

Um beijo, foste tudo que me deste,
Um beijo e nada mais;
Não sei que lembrança agora a trouxeste,
A percorrer meus ais.

Navegante

Navego ofegante
Pelas ondas do teu corpo
Meus gemidos
Nem sempre constantes
Penetram tua pele
Levando-te a preciosos instantes
De uma profunda loucura
Quando me arranha
Me morde, murmura
Gritando sou tua
Levando-me 
A um estado de embriaguês
Tão sóbria, tão crua
Que exausto
Como o vinho
Bebido em pequenos goles
Faço meu
O teu prazer.

Casamento na Roça - 1ª versão

Comédia em um ato
Cenário: Sala da casa de seu Juvenal. Sofá, poltronas e algumas cadeiras de madeira e uma cadeira de balanço.

Cena I
Juvenal sentado na cadeira de balanço, chapéu enterrado na cabeça, picando fumo e bebericando um copo de aguardente. Entra sua filha Juvenocência.

Juvenocência: Pai! Cê tá muito ocupado?
Juvenal: (como quem não quer nada) Um pouco filha... tô matutando...
Juvenocência: É queu precisava muito di falá co sinhô.
Juvenal: Pois antão, fale Juvenocência, fale.
Juvenocência: Dalberto pai...
Juvenal: Qui tem eli?
Juvenocência: Sabe qui nóis namoremo faiz tempo.
Juvenal: Sei sim, fia, sei sim e como sei.
Juvenocência: Pois é pai, acho que eli ta minrolando. 
Juvenal: Por que ocê tá mi dizendo isso minha fia.
Juvenocência: Eli nun ta querendo casa não.
Juvenal: Si minha fia qué, nóis dá um jeito.
Juvenocência: Carece não.
Juvenal: Antão pro mó di que se veio mi conta isso.
Juvenocência: Pru sinhô si prepará caso eli quera fugir da responsabilidade. Aí sim, si eli nun quisé arca cum feito, aí o pai cunversa co ele.
Juvenal: (Desconfiado) Di qui responsabilidade cê tá falandu?
Juvenocência: A do casório, ué. Eli vai tê qui casá.
Juvenal: Qui que ocê tá dizenu?
Juvenocência: É queu imbuxei.
Juvenal: Mais comu?
Juvenocência: Do jeito tradicionar, ué!
Juvenal: Cê tá mi dizenu qui aqule filho dum coice d’égua teve o displante di lhi fazê mar.
Juvenocência: Feiz não.
Juvenal: como não si ocê tá prenha?
Juvenocência: Pois é! Feiz tão bem queu imbuxei.
Juvenal: Mais qui conversa é essa Juvenocência?...
Juvenocência: Carma pai, carma...
Juvenal: Carmá como si eli num qué casá e ocê ainda vem mi contá tudo isso com a cara mais lambida do mundo?
Juvenocência: Qui otra cara eu ia te pra contá. Dispois eli inda num sabe do fio, cuando subé, eli casa.
Juvenal: Pois eu vô tê uns dois dedinhos de prosa cuesse cão dos inferno. Só vô apanha meu revorvi e ocê vai vê só. (sai).

Cena II
Juvenocência só e muito tranqüila

Juvenocência: Ai, ai... tenho qui acarmá a fera si não vai tê tragédia.

(Entra Inocência, a mãe)

Inocência: Fia de Deus! Qui foi qui ocê disse pru seu pai tá neste estado.
Juvenocência: Nada de mais, mãe. Eu só disse qui to imbuxada.
Inocência: Cê tá dizenu qui o Dalberto lhi feiz mar?
Juvenocência: Mar nada, mãe. Eli feiz foi muito bem, tanto qui nois arrepetimos várias veiz.
Inocência: Cê tá muito é desavergonhada, fia.
Juvenocência: To não, mãe. A sinhora sabi qui eu amu o Dalberto, num sabi?
Inocência: Mais num é assim não minha fia. Uma muié di respeito só pode si intregá adispois do casamento. E agora?... Eli casa, num casa?
Juvenocência: Qué não!
Inocência: Mais como?
Juvenocência: Eli num sabi do fio.
Inocência: Mais tem di sabê minha fia, tem di sabê.
Juvenocêcia: E vai, mãe. Agorinha mesmo eli tá chegano pra gente cunversá.
Inocência: Meu Deus! Seu pai vai matá eli aqui mesmo na sala. Vô já e já tentá acarmá o homi. (sai)

Cena III
Juvenocência sozinha. Entra Dalberto.

Dalberto: Oi minha flô!
Juvenocência: Oi meu amô! Qui bão qui ocê chegô. Nois tem muito qui conversá.
Dalberto: Fala minha jabuticaba, fala queu tô ouvino.
Juvenocência: Nois precisemo di casá.
Dalberto: Casá não, minha formusura, qui nois semo muito novo. Deixa isso pra depois, vamo logo namorá.
Juvenocência: Num dá não Dalberto! Cê num mi ama?
Dalberto: Amo, Ju, amo muito, mais pra quê a pressa? Vamo cum carma...
Juvenocência: Dá não, Dalberto!
Dalberto: Pur que minha flô di maracujá?
Juvenocência: Cê mi...

Cena VI
(Entra Juvenal e dona Inocência)

Juvenal: Cê tá aí fio duma égua! Nois tem muito qui acertá.
Dalberto: Carma lá, meu sogro. Por que tá tão nervoso?
Juvenal: num mi chame de sogro seu fio dum cão.
Inocência: Carma, Juvenal, óia o coração.
Juvenal: Qui coração qui nada! Deixa di bestera muié!
Juvenocência: Carma, pai. Eu inda num falei cum eli.
Juvenal: Carma nada. Eli te imbuxou, agora casa.
Dalberto: Cê tá prenha, minha flô, mais como?
Juvenal: Como si ocê num subesse... E deixa desse trololó eu quero é sabê si ocê casa ou num casa?
Dalberto: Apesar do fio... caso não. Nóis é muito jovem, deixa passa mais tempo. Eu ajudo a cuidá do bacuri e mais tarde nóis casa.
Juvenal: Mais tarde, mais tempo qui nada, cê vai casá e é já!
Dalberto: Caso não.
Juvenal: Casa!
Dalberto: Num caso.
Juvenal: Casa.
Dalberto: Num caso, num caso e num caso.
Juvenal: (Pondo o revolver na cara de Dalberto) Casa.
Dalberto: Caso, claro qui caso. Como não haverá di casá co’essa formosura...
Juvenal: (baixando a arma) Então casa?
Dalberto: Caso. Mais tenho de ir avisá meus pais.
Juvenal: Vou mandá chamá seus pais e o padre.
Dalberto (tentando fugir) Carece não. Eu vô num pé e vorto noutro.
Juvenal: (segurando o braço de Dalberto) Senta aí pra noivá, ocê só sai daqui casado. O Bastião vai lá chamá. (gritando) Bastião, ô Bastião, anda aqui seu cão sarnento.

Cena V
(Os mesmos e entra Bastião)

Bastião: Padrim chamô.
Juvenal: Não, tô gritando pra mode aquecê a garganta.
Bastião: (saindo) Ah!
Juvenal: Vorta aqui, fio dum cão. É claro qui eu tô chamando. Vai lá na casa do cumpadre Celestino e manda vir toda a famia pra cá. Adispois, ocê vai na igreja e chama já seu Padre pra vim aqui com destreza qui é caso di vida e morte.
Dalberto: Pra que tudo isso, meu sogro? Já num disse que caso.
Juvenocência: É pai, eli já disse...
Inocência: Carma, homi, vamos esperá cum carma.

(Juvenal senta na cadeira de balanço e fica encarando Dalberto)

Cena VI
(Os mesmos sentados e em silêncio. Entra o Padre)

Padre: O que aconteceu, seu Juvenal? Vim o mais rápido que eu pude.
Juvenal: (em pé apontando para Dalberto) Esse filho dum paria imbuxou minha fia.
Padre: Mas Como?
Juvenocência: Mais pur que qui todo muno fica perguntando isso? Do jeito tradicionar, ué. Por um acaso tem otro jeito?
Juvenal: Cala boca, fia desavergonhada.
Inocência: Isso num é jeito di ocê falá cum tua fia...
Dalberto: E muito menos cum minha futura esposa.

Cena VII
(Entra seu Celestino, pai de Dalberto, dona filomena e Maricota acompanhados de Bastião)

Celestino: Futura o quê?
Juvenal: Isso mesmo qui o sinhô ouviu. Seu fio feiz mar pra minha fia e agora tem qui casa.
Juvenocência: Feiz mar não, pai. Eli feiz foi bem demais.
Dalberto: E como foi bão, sô!
D. Filó: Mais meu fio, ocê ainda é muito novo.
Juvenal: Novo! Gente nova num faiz o que ele feiz.
Padre: Os tempos estão mudados seu Juvenal.
Juvenal: Só si mudô pras bandas da cidade di onde o sinhô vem. Puraqui tá tudo na mesma: Imbuxô, casô.
Maricota: (a parte) Se o Dalberto casá eu também caso. O Dalberto vai casá, pai?
Celestino: Vai não, qui fio meu num casa as pressa, não.
Juvenal: Casa.
Celestino: num casa.
Juvenal: Casa.
Celestino: Num casa, num casa e num casa.
Juvenal: (Apontando o revolver) Casa.
Celestino: (Também com um revolver) Num casa.
Inocência: Ai dona Filó, mi ajuda a sigurá os homi.
D. Filó: Carma gente, carma, vamos conversá. Cunversando a gente si intendi.
Maricota: ( a parte para Bastião) Nunca vi ninguém morre. Será qui elis si matão?
Bastião: (cochichando) Matão nada, isso é cunversa di gente frouxa.
Padre: (se pondo no meio dos dois homens) Calma meus irmãos. Se vocês não se respeitam, respeitem suas mulheres, d. Inocência, d. Filó e, principalmente, respeitem a mim que sou um emissário de Nosso Senhor. Falemos com os jovens. Juvenocência, você que se casar com o Dalberto.
Juvenal: Nessa hora num tem querê.

(O padre faz um sinal para que seu Juvenal se cale.)

Juvenocência: Quero Padre, é o qui eu mais quero.
Padre: Dalberto, você quer casar com a nossa Juvenocência?
Dalberto: Si meu pai num quisé, eu num caso não.
Juvenocência: Como Dalberto, se disse qui mi ama, num disse...
Juvenal: Comu num qué?
Celestino: Num querendo. Si eli casá eu num vô lhi dá um tustão.
Juvenal: Pois eu num quero o seu dinheiro, Celestino. Aqui na minha roça tem tudo di fartura. Dá pra todu mundo. O que eu quero é que seu fio lave a honra da minha fia casando ou morrendo.
Padre: Isso vai acabar é na delegacia.

Cena VIII
(Enquanto os homens avançam uns sobre os outros e o Padre e as esposas tentam separa-los, Dalberto e Juvenocência continuam no sofá e Maricota conversa com Bastião)

Maricota: Bastião, cê qué namorá comigo? Si Dalberto morre eu fico cum tudo, si ele casa eu também vou fica cum tudo.
Bastião: Aí é seu pai qui vai querê matá um. I vô sê eu.
Maricota: Nóis só vamo namora, seu bobo.
Bastião: I quem disse que eu vô arresistir a sua furmusura.
Maricota: Então... casemo também.
Bastião: Será qui seu pai deixa?
Maricota: (alto) Pai! Eu e o Bastião também queremo casá!
Celestino: E essa agora! Ô muié! Põe juízo na cabeça di tua fia.
Padre: (com olhos de cobiça) Dois casamentos é muito melhor que apenas um.
D. Filó: Que isso Padre?
Padre: Ora! Pensemos. Seu Celestino não quer o casamento de Dalberto com Juvenocência, mas certamente ia querer o casamento de Maricota com o Bastião. Olha que a menina já está passando da idade. Então, tudo ficaria em família e todos poderiam comungar da felicidade.
Inocência: Maricota, minha fia, cê qué mesmo casá com o nosso bastião.
Maricota: Quero sim, d. Inocência.
Juvenal: Mais aí quem num qué sou eu. Bastião é muito novo.
Celestino: E meu fio também num é?
Juvenal: Mais eli imbuxou a minha fia. Qué que o Bastião faça o mesmo, qué?
Celestino: Si fizé eu mato.
Juvenal: Intão vô matá u Dalberto.
Inocência: Ai! Que Deus nos acuda!
D. Filó: Valha-me Deus.
Padre: Irmãos... Temos que manter a calma.

Cena IX
(Entra o Delegado)

Delegado: Qui furduncio é este aqui? Uns passam por aqui e falam de briga, outros falam qui o padre veio correndo por que tinha gente morta... Qué qui tá acontecendo?
Juvenal: Dalberto imbuxou minha fia e num qué casa.
Dalberto: (amedrontado) Meu pai é qui num qué.
Celestino: E num quero mesmo.
Maricota: Mais eu quero casá com o Bastião.
Bastião: Aí quem num qué é meu padrin.
Juvenal: Pois é muito novo i num imbuxou ninguém.
Bastião: (puxando Maricota) Num seja pur isso. Vem Maricota.
Delegado: Fica quieto aqui, seu fio dum cão sarnento.
Inocência: Que isso seu dotô?
Padre: Vamos casá-los todos.
Delegado: é o melhor mesmo.
Dalberto: Si meu pai num qué, eu num caso.
Delegado: Casa.
Dalberto: Num caso.
Delegado: Casa ou vai pro xilindró.
Dalberto: Eu caso, perfeitamente.
Celestino: (com ares de satisfação) E Maricota, também casa, não?
Juvenal: Craro qui não!
Delegado: Casa.
Juvenal: Num casa.
Delegado: Então quem vai pru xilindró é você.
Juvenal: Casa e com a minha bênção.
Inocência: Acho qui tudo vai si arresolvê, né D. Filó.
D. Filó: Graças a Deus, d. Inocência, graças a Deus.
Delegado: Então Padre, quando podemos realizar os casórios?
Padre: hoje mesmo. Eu os conheço a todos e sei que não há nem um impedimento. Façamos a celebração logo mais a noitinha. Afinal a questão é de urgência.
Delegado: Pois então, tá resolvido. Tem casório hoje.
Juvenocência: Ti amo, Dalberto.
Dalberto: Também ti amo, minha flô!
Maricota: Ti amo, Bastião.
Bastião: Também ti amo Maricota.
Padre: Tudo na santa paz.

Cena X
(Entra um guarda correndo)

Guarda: Seu delegado, seu delegado...
Delegado: Respira e fala homem de Deus. O que aconteceu pra você vira assim tão esbaforido.
Guarda: Dona Tristina... seu delegado... seu delegado... dona Tristina tá lhe chamando... é urgente... urgente, seu delegado.
Delegado: Calma, respira com calma. Pronto. Já está bom, não está.

(O guarda faz um gesto de cabeça)

Delegado: Então agora fala com calma o qui aconteceu?
Guarda: É sua fia, seu delegado, sua fia tá imbuxada e ela num qué fala quem foi qui lhe feiz mar!
Juvenocência: Mar nada, é muito é du bom, sô!
Guarda: Ela num qué falá quem foi não. Ela num qué falá si foi o Dalberto ou si foi o Bastião.
Delegado: É hoje qui eu mato um.

(Levanta o revólver da tiros para cima, todos correm, cai o pano.)